quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Meu vestido azul.


Trabalhar em loja masculina é quase um alívio para uma mulher que não pode ver uma liquidação. Mas, trabalhar em uma loja masculina no meio de trezentas e cinquenta lojas femininas é mais ou menos assim: descia e subia a rua todos os dias namorando alguns modelitos. Me segurando daqui, me segurando dali para não sair gastando tudo. Juro que quase sempre eu conseguia. Num belo dia ensolarado, nada controlado - diga-se de passagem, decidi tirar a hora de almoço para espiar as novidades. Fui em algumas lojas de minha preferência e nada. Voltei, trabalhei e continuei querendo alguma coisa nova para o verão. Algo leve, bonito. Que desse para estar chique ou casualmente arrumada para qualquer ocasião. Passaram-se uns dias e a gerente de uma loja que adoro ligou. "Olá, J. temos muitas novidades com até quarenta porcento de desconto." HÁ! Posso confessar que não ouvi mais nada do que ela disse depois da palavrinha 'desconto'. Abdiquei de mais uma hora de almoço para poder averiguar. Chegando na loja, procurei minha tão adorada ex-gerente e comecei a provar. Provar. Provar. Experimentei todos os vestidos soltinhos, comportados e com a minha cara pro verão. Separei uns três. Dois deles já destinados à um certo evento. O terceiro e último foi uma escolha fútil, na verdade. Não precisava, mas acabei levando. De fato, não tinha ficado cem por cento satisfeita com ele, mas comprei. Usei os dois primeiros vestidos e o terceiro, menos adorado, ficou no armário com etiqueta e tudo por semanas. Até o dia que um amigo voltaria de viagem e resolvi vesti-lo. Trauma. A noite foi horrível. Depois, só de olhar para aquele vestidinho eu sentia arrepios. Vestia tudo, menos ele. Passaram-se mais umas semanas até que, sem tempo - nem dinheiro, para mais um vestido, acabei usando-o no casamento matinal da minha prima. Era algo exclusivo para os familiares. Uma cerimônia religiosa simples seguida de um almoço. Não era minha opção favorita, mas enfiei no corpo e fui. Dias passaram e ao receber um telefonema no qual precisava colocar a primeira roupa que encontrasse, lá estava ele, na ponta do armário, suplicando uma voltinha. Vesti o danado, coloquei uma sapatilha, prendi o cabelo num coque e fui. Horrorosa. Esse vestido azul já deu um texto, uma foto e ontem ele voltou a me surpreender. Quem diria. Até então, não era favorito nem de longe. Mas, sem querer apagou a lembrança de uma noite terrível. Dando lugar ao começo de tudo. Uma ótima lembrança por sinal.

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